18.8.09

Retratos - A manhã seguinte

E o esquecimento, donde vem? e a escova de dentes que não é minha e assalta a minha mão, e outra vez aquela pergunta em frente ao espelho que se vai cristalizando em imagens mais ao menos desorganizadas, e o álcool a escapar-se-me pelos poros e a cada respiração, e ainda assim não o suficiente, como tudo me tem escapado um pouco na vida, e aquela voz estranha, que não vem de dentro de mim mas de algo mais profundo, é real e vem do quarto ao lado, e o telemóvel que toca e naquele momento tudo soa a estranho, como se tudo fosse um sonho e o sonho não pudesse ser a vida, é o despertador dizes, e a cabeça a explodir em constantes assomos de culpa, ai os excessos ouço-te, e não te quero ainda, que seria de mim sem os excessos, e a culpa a adensar-se num abraço, estranho também, mas quente, e naquele momento podia sentir a tua alma, e não era um abraço já, mais um beijo, ou uma linguagem secreta, talvez aquele filme, e não me lembro do nome ainda, que me fez esconder as lágrimas, que eram também para ti, que não és a mesma. E ainda assim olho-me, mas vejo-me desabitado, nem vazio, mas tu pareces gostar tanto de mim assim que quase acredito que é possível gostar-se de alguém assim, só me queres preencher, deve ser por te querer preencher dizes antes de eu o ter dito, e não vou fazer nada hoje, está decidido, esta ressaca pesa tanto como a vida, ou mais, mas doí menos, estes espasmos de dor a lembrarem que também a felicidade é etérea, como este verão, ou como eu em frente à porta aberta da casa-de-banho, a ver-te sair posta nessas cuequinhas, e só a pensar que tu talvez pudesses ser outra, ou pelo menos que eu poderia ser outro, e tu a dizeres que não, que não podia ser diferente, como se me tivesses ouvido, porque há essa coisa a que ousam chamar destino, esse deus castigador, um deus das pequenas coisas, não sejas parvinho dizes, já com o vestidinho que apanhaste aos pés da cama, onde fez amor a noite inteira, vais ficar o dia todo na cama? e a noite, se não o puder evitar, e na verdade a manhã seguinte custa-me tanto que abdicaria da vida para ficar para aí deitado, e para evitar esta conversa, e esta manhã, e sabes que sei que sabes, merda isto soa a uma canção qualquer, ou talvez não, que gosto de dormir sozinho, tens medo que os sonhos se misturem? não com a vida, mas o meu com o teu, mas não quando estou assim tão frágil, ressacado queres dizer, e não houve risos, não quando preciso que me deites com as tuas palavras doces, como se aconchega um filho, por isso este beijo da manhã, seguido das tuas queixas ao álcool que ainda aquece o meu hálito e o meu viver.

18 VIII 2009

Por Xavier Carlos

17.8.09

Poetry Rules - José Luís Peixoto

quando os nossos corpos se separaram

quando os nossos corpos se separaram olhámo-nos quase a desejar ser felizes.
vesti-me devagar, o corpo a ser ridículo. disse espero que encontres um homem
que te ame, e ambos baixámos o olhar por sabermos que esse homem não existe.
despedimo-nos.tu ficaste para sempre deitada e nua. eu saí para sempre
na noite.olhamo-nos pela última vez e despedimo-nos sem sequer nos conhecermos.

( A criança em ruínas )

12.8.09

Oh Captain, my Captain...


"A poesia, se não for o lugar onde o desejo ousa fitar a morte nos olhos, é a mais fútil das ocupações."

11.8.09

Meu amor querido - Lobo Antunes

Carta de António Lobo Antunes a Maria José Lobo Antunes
7.4.1971

Meu amor querido

Adoro-te minha gata de Janeiro meu amor minha gazela meu miosótis minha estrela aldebaran minha amante minha Via Láctea minha filha minha mãe minha esposa minha margarida meu gerânio minha princesa aristocrática minha preta minha branca minha chinezinha minha Pauline Bonaparte minha história de fadas minha Ariana minha heroína de Racine minha ternura meu gosto de luar meu Paris minha fita de cor meu vício secreto minha torre de andorinhas três horas da manhã minha melancolia minha polpa de fruto meu diamante meu sol meu copo de água minhas escadinhas da Saudade minha morfina ópio cocaína minha ferida aberta minha extensão polar minha floresta meu fogo minha única alegria minha América e meu Brasil minha vela acesa minha candeia minha casa meu lugar habitável minha mesa posta minha toalha de linho minha cobra minha figura de andor meu anjo de Boticelli meu mar meu feriado meu domingo de Ramos meu Setembro de vindimas meu moinho no monte meu vento norte meu sábado à noite meu diário minha história de quadradinhos meu recife de Manuel Bandeira minha Pasargada meu templo grego minha colina meu verso de Höderlin meu gerânio meus olhos grandes de noite minha linda boca macia dupla como uma concha fechada meus seios suaves e carnudos meu enxuto ventre liso minhas pernas nervosas minhas unhas polidas meu longo pescoço vivo e ágil minhas palavras segredadas meu vaso etrusco minha sala de castelo espelhada meu jardim minha excitação de risos minha doce forquilha de coxas minha eterna adolescente minha pedra brunida meu pássaro no mais alto ramo da tarde meu voo de asas minha ânfora meu pão de ló minha estrada minha praia de Agosto minha luz caiada meu muro meu soluço de fonte meu lago minha Penélope meu jovem rio selvagem meu crepúsculo minha aurora entre ruínas minha Grécia minha maré cheia minha muralha contra as ondas meu véu de noiva minha cintura meu pequenino queixo zangado minha transparência de tules minha taça de oiro minha Ofélia meu lírio meu perfume de terra meu corpo gémeo meu navio de partir minha cidade meus dentes ferozmente brancos minhas mãos sombrias minha torre de Belém meu Nilo meu Ganges meu templo hindu minha areia entre os dedos minha aurora minha harpa meu arbusto de sons meu país minha ilha minha porta para o mar meu manjerico meu cravo de papel minha Madragoa minha morte de amor minha Ana Karénine minha lâmpada de Aladino minha mulher.

(in: D'este viver aqui neste papel descripto - cartas da guerra; António Lobo Antunes, D. Quixote)

10.8.09

Poetry Rules - Sophia de Mello Breyner

Promessa

És tu a Primavera que eu esperava,
A vida multiplicada e brilhante,
Em que é pleno e perfeito cada instante.