22.10.09

Poetry Rules - Mia Couto

POEMA DA DESPEDIDA

Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo

18.10.09

Poetry Rules - Xavier

A Saudade Não É Apenas Uma Palavra

Este quarto faz-me mal. Estás aqui,
E aqui a saudade deixa de ser apenas uma palavra.
A tua fotografia já não está na parede.
Mas continua a enchê-la,
E a lembrar-me que a saudade não é apenas uma palavra.
Sou uma criança em ruínas, como a criança do livro daquele poeta,
Ou como o próprio poeta,
Mas eu sou real, e as ruínas também.
Sinto que posso desfazer-me a qualquer momento, e choro,
Mas não por isso.
Lembro com saudade
Os tempos em que a saudade era apenas uma palavra,
Doces,
Como lembro as vezes que escrevi a palavra saudade,
Sem saber que não estava a escrever apenas uma palavra.

16 V 2009

15.10.09

Poetry Rules - Pablo Neruda

XVII

Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou seta de cravos que propagam o fogo:
amo-te como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.

Amo-te como a planta que não floriu e tem
dentro de si, escondida, a luz das flores,
e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo
o denso aroma que subiu da terra.

Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde,
amo-te directamente sem problemas nem orgulho:
amo-te assim porque não sei amar de outra maneira,

a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és,
tão perto que a tua mão no meu peito é minha,
tão perto que os teus olhos se fecham com o meu sono.

(Cem Sonetos de Amor)