16.5.10
Poetry Rules - Adília Lopes
Ama o Sol que tem cabelos doirados!
Se tu amas por causa da juventude, então não me ames!
Ama a Primavera que fica nova todos os anos!
Se tu amas por causa dos tesouros,então não me ames!
Ama a Mulher do Mar: ela tem muitas pérolas claras!
Se tu amas por causa da inteligência, então não me ames!
Ama Isaac Newton: ele escreveu os Princípios Matemáticos da Filosofia
Natural!
Mas se tu amas por causa do amor, então sim, ama-me!
Ama-me sempre: amo-te para sempre!
2.5.10
25.4.10
Revolução, Precisa-se!
o deus Silêncio ostenta as Inumeráveis
águas nesta apertada livraria de Lisboa
também ainda o primeiro título (poesia) de Manuel
António Pina em ano de revolução que
nesse tempo eram mesmo
a sério as revoluções e podíamos acrescentar-lhes pela rua
o nosso carme as madrugadas flores
agora um amigo diz-me: “esta
revolução não dá um passo!”
concedo, mas não desisto
incorro em certos delicados actos de guerrilha
por exemplo deixo poemas em cafés ou em pequenas
livrarias que ainda apoiam em segredo esta causa
revolucionária
depois mando as coordenadas sigilosas à amada
que no dia seguinte quase sempre
pela tarde os vai buscar
Miguel-Manso
[in Quando escreve descalça-se, Trama, 2008]
18.4.10
Poetry Rules - Diogo Vaz Pinto
Guardei o recibo, que não serve para nada.
Dados impessoais: o nosso subtotal foi de 6.35
— pediste uma água mineral, um café
e uma sandes de ovo (em que nem tocaste);
pagámos caro por estarmos ali os dois,
na cafetaria do aeroporto com uma hora inteira
só para dizer uma palavra. Tudo
processado por computador, IVA incluído.
Uma operação que teve início precisamente
às 04:55 da madrugada. Agora
temos muito tempo para nos contentarmos
por já não termos que disputar as contas,
tu pagas os teus cafés, e eu sem ti
passo bem sem café.
Criatura, n.º 3, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2009.
13.4.10
Calvino`s Holiday letter
Excelentíssima Anna, por aqui os campos, com os seus cereais robustos, continuam a tapar melhor os movimentos sexuais do que os uivos que daí resultam. Trata-se pois de uma discordância evidente entre som e sua origem. E sendo o prazer um excesso acima do mais táctil, é de salientar no entanto a elevação agitada do som que se torna na atmosfera o actor principal, atirando assim - por via do vento - um rubor forte à cara das aldeãs que da janela pensavam ver, mas afinal ouvem.
Devido aos campos férteis que funcionam como cortina, nesses instantes, onde casais jovens se excitam como instrumentos afinados, para um surdo, cara Anna, a janela torna-se subitamente inútil.
( Gonçalo M. Tavares, "O Senhor Calvino" - Caminho)
@quintasdeleitura.blogspot.com
4.4.10
Poetry Rules - Sebastião Alba
Ontem a comoção foi da espessura dum susto
duma árvore correndo
vertiginosamente para dentro do desastre
E já não choramos. Passamos
sem que o mais acurado apelo
nos decida
Nas camisas
teu monograma desanlaça-se.
Tua mão vê-o nos céus nocturnos
sabe que há uma ígnea
chave algures
Minha tristeza não tem expressão visível
como quando a chuva cessa
sobre a dádiva fugaz do nosso sangue
que hoje embebe a terra
É tal a ordem em nós
que um odor a bafio sai de nossas bocas
e uma teia de aranha interrompe o olhar
que te envolveu em vão.

