14.2.11
From Clarice With Love
12.2.11
From Poets Corner - Xavier
O sr. Abílio abriu a porta ao poeta e fez-lhe mil vénias antes do o convidar a entrar
— Passe!
pegou-lhe no chapéu, como se lhe pega-se na mão, e pousou-o na mesa com a delicadeza que só o Álvaro de Campos possui ao fumar
— Sente-se!
mas bateu-lhe com estrondo por trás a porta ao fechar
como que a dizer, ao arrepio da metafísica, com a nova lei no poema nem o Álvaro pode fumar.
22.1.11
From Poets Corner - Herberto Helder
É parti-lo em quatro, pegando no pedúnculo,
e abri-lo para dele fazer uma flor de mel, brilhante,
rósea, húmida, desabrochada
em quatro espessas pétalas.
Depois põe-se de lado a casca
Que é como um cálice quadrissépalo,
e colhe-se a flor com os lábios.
Mas a maneira vulgar
É pôr a boca na fenda, e de um sorvo só aspirar toda
a carne
Cada fruta tem o seu segredo.
O figo é uma fruta muito secreta.
Quando se vê como desponta direito, sente-se logo~que é simbólico:
Parece masculino.
Mas quando se conhece melhor, pensa-se como os
romanos que é uma fruta feminina.
Os italianos apelidam de figo os orgãos sexuais da
fêmea:
A fenda, o yoni,
Magnífica via húmida que conduz ao centro.
Enredada,
Inflectida,
Florescendo toda para dentro com suas fibras
matriciais;
Com um orifício apenas.
O figo, a ferradura, a flor da abóbora.
Símbolos.
Era uma flor que brotava para dentro, para a
matriz;
Agora é uma fruta, a matriz madura.
Foi sempre um segredo.
E assim deveria ser, a fêmea deveria manter-se para
sempre secreta.
Nunca foi evidente, expandida num galho
Como outras flores, numa revelação de pétalas;
Rosa-prateado das flores do pessegueiro, verde vidraria
veneziana das flores da nespereira e da sorveira,
Taças de vinho pouco profundas em curtos caules
túrgidos,
Clara promessa do paraíso:
Ao espinheiro florido! À Revelação!
A corajosa, a aventurosa rosácea.
Itálico
Dobrado sobre si mesmo, indizível segredo,
A seiva leitosa que coalha o leite quando se faz a ricotta,
Seiva tão estranhamente impregnando os dedos que
afugenta as próprias cabras;
Dobrado sobre si mesmo, velado como uma mulher
muçulmana,
A nudez oculta, a floração para sempre invisível,
Apenas uma estreita via de acesso, cortinas corridas
diante da luz;
Figo, fruta do mistério feminino, escondida e íntima,
Fruta do mediterrâneo com tua nudez coberta,
Onde tudo se passa no invisível, floração e fecundação,
e maturação
Na intimidade mais profunda, que nenhuns olhos
conseguem devassar
Antes que tudo acabe, e demasiado madura te abras
entregando a alma.
Até que a gota da maturidade exsude,
E o ano chegue ao fim.
O figo guardou muito tempo o seu segredo.
Então abre-se e vê-se o escarlate através da fenda.
E o figo está completo, fechou-se o ano.
Assim morre o figo, revelando o carmesim através
da fenda púrpura
Como uma ferida, a exposição do segredo à luz do dia.
Como uma prostituta, a fruta aberta mostra o seu segredo.
Assim também morrem as mulheres.
Demasiado maduro, esgotou-se o ano,
O ano das nossas mulheres.
Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.
Foi desvendado o segredo.
E em breve tudo estará podre.
Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.
Quando no seu espírito Eva soube que estava nua
Coseu folhas de figueira para si e para o homem.
Sempre estivera nua,
Mas nunca se importara com isso antes da maçã da
ciência.
Soube-o no seu espírito, e coseu folhas de figueira.
E desde então as mulheres não pararam de coser.
Agora bordam, não para esconder, mas para adornar
o figo aberto.
Têm agora mais que nunca a sua nudez no espírito,
E não hão-se nunca deixar que o esqueçamos.
Agora, o segredo
Tornou-se uma afirmação através dos lábios húmidos
e escarlates
Que riem perante a indignação do Senhor.
Pois quê, bom Deus! gritam as mulheres.
Muito tempo guardámos o nosso segredo.
Somos um figo maduro.
Deixa-nos abrir em afirmação.
Elas esquecem que os figos maduros não se ocultam.
Os figos maduros não se ocultam.
Figos brancos-mel do Norte, negros figos de entranhas
escarlates do Sul.
Os figos maduros não se ocultam, não se ocultam sob nenhum clima.
Que fazer então quando todas as mulheres do mundo
se abrirem na sua afirmação?
Quando os figos abertos não se ocultarem?
26.12.10
Porque o amor das coisas no seu tempo futuro é terrivelmente profundo, é suave, devastador.
SÚMULA
Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.
Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
- Era uma casa - como direi? - absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.
As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.
Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.
- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.
Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.
Herberto Helder In «Ou o Poema Contínuo», Assírio & Alvim, 2001
22.12.10
From Poets Corner - Mafalda Gomes
pris vis
no vácuo
e eu vou com ele
namorados modernos, eu e o meu amor
afunilamos na medida cósmica do impossível
astros - eu amo
cair na primeira pessoa é mais perigoso do que escrevinhar no metro
a queda voluntária
do poema não compreende
se eu amar
a degeneração começou no primeiro
tropeço e foi uma questão de utilidade
aconchego, uma questão de piso
líquida e doida do porvir e faço saber que o verso não terminará jamais porque eu tenho vontade de dizer que um poema é um milagre, um sentimento dentro uma esfera de tinta azul, uma cona molhada, uma pedra que deus não levanta. se em verdade não vos falar, ide, pois, queixar-vos ao imperativo de vos falar verdades que não doam tanto
- tu não me queres
— Porque não tentamos uma coisa diferente hoje, tipo…ter saudades?
experimentei as últimas horas
mãos, flores, um certo frio de flores a despertar, de mãos a nascer, o primeiro sangue do Douro, tudo virgem, o homem por se fazer, todas as mentiras ainda e os segredos, os nomes todos, o teu nome
— Porque não tentamos uma coisa diferente hoje, tipo…ter saudades?
Novembros que apetecem sempre, tu que me apeteces sempre também, tu a pores-te no meu pijama que isso de morrer aos bocadinhos não existe, eu bem sei, e a fazeres-te ainda mais linda, como se isso fosse possível, e eu a apaixonar-me ainda uma vez mais, que isso de morrer aos bocadinhos
— Não sei, a minha alma raramente faz sentido
a chuva lá fora, tão longe que não parece mas passamos a vida inteira nisto e de repente, e nem de repente, passamos mesmo a vida inteira nisto, asas que amortecem quedas asas que deixam e partimos os ossos todos se passamos a vida nisto asas que a cair não sei
mas há uma morte certa para todas as coisas, um dizer
— Custa tanto dizer certas coisas
melhor fingir, amo-te, não vás, para sempre
— Mesmo quando se sente
melhor fingir, e fingir a chuva também, e esquecer os Domingos passados na cama a fazer música com os cobertores, a fazer música com os lençóis, a fazer música ou poesia com os teus dedos, com os nós dos teus dedos, a fazer amor ou poesia
— Sobretudo quando se sente
amo-te não vás para sempre, melhor fingir
que não se sente o que se sente que não se quer sentir o que se sente que se sente outra coisa que existe mais alguma coisa para além de e a chuva também, mas ainda longe
— Sobretudo quando só se sente… Achas que amanhã me podes amar mais um bocadinho?
que os planos existem para isso mesmo, não serem cumpridos, não esse plano, não esse que não pode ser tocado, e ainda me surpreende o facto de aceitares isso com tanta dificuldade
— Foda-se, acho que sou louco por ti
que os planos existem para isso e para conseguir finalmente dizer adeus a quem nunca precisou de partir, e partir
que nunca precisei de saber o que não queres contar ou o que talvez não tenha sido ou o que talvez não sabes
que
não te vou magoar, não te vou deixar sozinha e quando me pedires para te levar para casa sabe
nunca precisarei de saber o que não queres contar
e não espero de ti nada que me possas dar
