31.3.11
From Poets Corner - Xavier
26.3.11
12.3.11
uma breve suspeita de que sempre tive o coração mal situado
uma breve suspeita de que sempre tive o coração mal situado, o início
e a certeza de que só tu conheces a minha geografia,
por isso,
quando te digo volta depressa, quero dizer…volta depressa!
e se não te importares: não suspendas o tempo: não obrigues os pássaros a inventar a respiração: cala as bibliotecas: põe-me em modo de espera…ainda que saibas que eu sei esperar-te, e adormece a noite gentilmente e o dia, e quando vieres traz-me muitas saudades
que quando te digo, volta depressa, quero dizer…volta depressa!...
quero dizer, não vás!
sim, em modo de espera
e sobretudo não me obrigues a inventar o sol na tua ausência, e faz-me esquecer as palavras, não quero dizer saudade, não preciso de dizer saudade, não preciso dar nomes ao que sinto
e já vou esquecendo a idade das palavras,
e restam já poucas para te dizer o que sabes que sinto,
por isso não preciso de dizer saudade, por isso digo apenas cereja, ou manhã, ou cor, ou casa, cereja, manhã, cor, casa, os teus olhos…
— diz antes: o melhor lugar do mundo
— o melhor lugar do mundo
és tu, e vou para dentro agora, deixo ficar caída a toalha, amor, vou para dentro do amor para aprender a dizer-te casa
— vai, mas antes diz: o melhor lugar do mundo
— gosto tanto de ler em ti coisas que não sabes que existem,
és tu
— e hoje o professor perguntou-me se eu estava apaixonada
— e digo: deixa-me ser o teu melhor lugar do mundo
— e hoje o professor perguntou-me se eu estava apaixonada
— e na terça-feira apeteceu-me que me pedisses para acordar contigo, por isso acho que o teu professor tem razão
agora vou para dentro do amor, amor, vem
assim ficas a saber que eu estive sempre aqui.
1.3.11
Poetry Rules - Henrique Manuel Bento Fialho
abririas as pernas com menos cuidado?
Se eu começasse sempre pela língua,
julgar-me-ias menos bruto?
E se eu não te mordesse o pescoço,
acaso continuarias a cravar-me as unhas nas costas?
Se eu não apagasse a televisão. adormecerias aconchegada à minha cintura?
Se eu tomasse banho depois de fornicarmos,
julgarias o acto mais higiénico?
Se em vez do silêncio depois do orgasmo
passássemos a ter uma confissão no olhar,
perdoar-nos-ia deus o desperdício?
Já agora diz-me: se não dependêssemos
um do outro, como é que explicarias
o teu cheiro nas minhas palavras?
15.2.11
From Poets Corner - Xavier
morro frequentemente por ti e não sei
o amor é quando tu me salvas
mesmo que ignores o protocolo
a lágrima quando cai de tardia não lembra a hora em que teve vida
premissa básica
o poema só é poema quando não consegue morrer por outra via
o amor é quando tu me salvas
e o meu sangue que corre ao contrário
como as estações depois de Neruda inventar as andorinhas a primavera as cerejeiras
e a imaginação que perdura
além um exército de ecos urgentes a florir na agitação de um sexo que já não sabemos
algo como um coração a bater debaixo da mesa, ouve-se
coisa indesejada, ouve-se
algo como um coração
preciso de silêncio para reconhecer no teu corpo a fuga
mãos a nascer do nada tocam memórias vazias
mãos a nascer do nada nada tocam como memórias
premissa básica
desacreditar do tempo nas suas mais impenetráveis formas é calar as sombras deste poema
é abraçar-te e
ver as flores sorrirem como quando as escrevi, e depois pensei
chove tanto nos dias que passo sem ti
uma chuva que afoga tudo e não lava nada e não leva a nada
e nada leva a nada
delicado coração de mão estendida para ti num percurso só de ida
súbito percurso de sombras e vozes menstruadas
má notícia, duas vezes má notícia
o poema não se quer amado
já que a vida o esmaga de seguida
e as coincidências que não passam de ressonâncias que se repetem nas ressonâncias de coincidências anteriores
também o levantar-me esta manhã não tem mais propósito que levantar-me esta manhã, repetir nesta a manhã de ontem e
também as palavras não cabem nas palavras mesmo quando ficam escritas
e não posso escrever mais alto e tu não ouves e a Mafalda baixinho:
´poemas sujos são melhores que poemas lavados`
premissa básica
poemas lavados não são poemas
e não posso escrever mais alto
e morro frequentemente por ti e não sei
4 I 2011 Porto
14.2.11
From Clarice With Love
12.2.11
From Poets Corner - Xavier
O sr. Abílio abriu a porta ao poeta e fez-lhe mil vénias antes do o convidar a entrar
— Passe!
pegou-lhe no chapéu, como se lhe pega-se na mão, e pousou-o na mesa com a delicadeza que só o Álvaro de Campos possui ao fumar
— Sente-se!
mas bateu-lhe com estrondo por trás a porta ao fechar
como que a dizer, ao arrepio da metafísica, com a nova lei no poema nem o Álvaro pode fumar.