12.3.11

uma breve suspeita de que sempre tive o coração mal situado

uma breve suspeita de que sempre tive o coração mal situado, o início

e a certeza de que só tu conheces a minha geografia,

por isso,

quando te digo volta depressa, quero dizer…volta depressa!

e se não te importares: não suspendas o tempo: não obrigues os pássaros a inventar a respiração: cala as bibliotecas: põe-me em modo de espera…ainda que saibas que eu sei esperar-te, e adormece a noite gentilmente e o dia, e quando vieres traz-me muitas saudades

que quando te digo, volta depressa, quero dizer…volta depressa!...

quero dizer, não vás!

sim, em modo de espera

e sobretudo não me obrigues a inventar o sol na tua ausência, e faz-me esquecer as palavras, não quero dizer saudade, não preciso de dizer saudade, não preciso dar nomes ao que sinto

e já vou esquecendo a idade das palavras,

e restam já poucas para te dizer o que sabes que sinto,

por isso não preciso de dizer saudade, por isso digo apenas cereja, ou manhã, ou cor, ou casa, cereja, manhã, cor, casa, os teus olhos…

— diz antes: o melhor lugar do mundo

— o melhor lugar do mundo

és tu, e vou para dentro agora, deixo ficar caída a toalha, amor, vou para dentro do amor para aprender a dizer-te casa

— vai, mas antes diz: o melhor lugar do mundo

— gosto tanto de ler em ti coisas que não sabes que existem,

és tu

— e hoje o professor perguntou-me se eu estava apaixonada

— e digo: deixa-me ser o teu melhor lugar do mundo

— e hoje o professor perguntou-me se eu estava apaixonada

— e na terça-feira apeteceu-me que me pedisses para acordar contigo, por isso acho que o teu professor tem razão

agora vou para dentro do amor, amor, vem

assim ficas a saber que eu estive sempre aqui.

1.3.11

Poetry Rules - Henrique Manuel Bento Fialho

Se eu te amasse a horas certas,
abririas as pernas com menos cuidado?
Se eu começasse sempre pela língua,
julgar-me-ias menos bruto?
E se eu não te mordesse o pescoço,
acaso continuarias a cravar-me as unhas nas costas?
Se eu não apagasse a televisão. adormecerias aconchegada à minha cintura?
Se eu tomasse banho depois de fornicarmos,
julgarias o acto mais higiénico?
Se em vez do silêncio depois do orgasmo
passássemos a ter uma confissão no olhar,
perdoar-nos-ia deus o desperdício?
Já agora diz-me: se não dependêssemos
um do outro, como é que explicarias
o teu cheiro nas minhas palavras?

15.2.11

From Poets Corner - Xavier


morro frequentemente por ti e não sei


o amor é quando tu me salvas

mesmo que ignores o protocolo

a lágrima quando cai de tardia não lembra a hora em que teve vida


premissa básica

o poema só é poema quando não consegue morrer por outra via

o amor é quando tu me salvas


e o meu sangue que corre ao contrário

como as estações depois de Neruda inventar as andorinhas a primavera as cerejeiras

e a imaginação que perdura

além um exército de ecos urgentes a florir na agitação de um sexo que já não sabemos

algo como um coração a bater debaixo da mesa, ouve-se

coisa indesejada, ouve-se

algo como um coração


preciso de silêncio para reconhecer no teu corpo a fuga


mãos a nascer do nada tocam memórias vazias

mãos a nascer do nada nada tocam como memórias


premissa básica

desacreditar do tempo nas suas mais impenetráveis formas é calar as sombras deste poema

é abraçar-te e

ver as flores sorrirem como quando as escrevi, e depois pensei

chove tanto nos dias que passo sem ti

uma chuva que afoga tudo e não lava nada e não leva a nada


e nada leva a nada


delicado coração de mão estendida para ti num percurso só de ida

súbito percurso de sombras e vozes menstruadas

má notícia, duas vezes má notícia

o poema não se quer amado

já que a vida o esmaga de seguida

e as coincidências que não passam de ressonâncias que se repetem nas ressonâncias de coincidências anteriores

também o levantar-me esta manhã não tem mais propósito que levantar-me esta manhã, repetir nesta a manhã de ontem e


também as palavras não cabem nas palavras mesmo quando ficam escritas


e não posso escrever mais alto e tu não ouves e a Mafalda baixinho:

´poemas sujos são melhores que poemas lavados`

premissa básica

poemas lavados não são poemas

e não posso escrever mais alto


e morro frequentemente por ti e não sei


4 I 2011 Porto

14.2.11

From Clarice With Love

´Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece...`

12.2.11

From Poets Corner - Xavier

O sr. Abílio abriu a porta ao poeta e fez-lhe mil vénias antes do o convidar a entrar

— Passe!

pegou-lhe no chapéu, como se lhe pega-se na mão, e pousou-o na mesa com a delicadeza que só o Álvaro de Campos possui ao fumar

— Sente-se!

mas bateu-lhe com estrondo por trás a porta ao fechar

como que a dizer, ao arrepio da metafísica, com a nova lei no poema nem o Álvaro pode fumar.

22.1.11

From Poets Corner - Herberto Helder

A maneira correcta de comer um figo à mesa
É parti-lo em quatro, pegando no pedúnculo,
e abri-lo para dele fazer uma flor de mel, brilhante,
rósea, húmida, desabrochada
em quatro espessas pétalas.

Depois põe-se de lado a casca
Que é como um cálice quadrissépalo,
e colhe-se a flor com os lábios.

Mas a maneira vulgar
É pôr a boca na fenda, e de um sorvo só aspirar toda
a carne

Cada fruta tem o seu segredo.

O figo é uma fruta muito secreta.
Quando se vê como desponta direito, sente-se logo~que é simbólico:
Parece masculino.
Mas quando se conhece melhor, pensa-se como os
romanos que é uma fruta feminina.

Os italianos apelidam de figo os orgãos sexuais da
fêmea:
A fenda, o yoni,
Magnífica via húmida que conduz ao centro.
Enredada,
Inflectida,
Florescendo toda para dentro com suas fibras
matriciais;
Com um orifício apenas.

O figo, a ferradura, a flor da abóbora.
Símbolos.

Era uma flor que brotava para dentro, para a
matriz;
Agora é uma fruta, a matriz madura.

Foi sempre um segredo.
E assim deveria ser, a fêmea deveria manter-se para
sempre secreta.

Nunca foi evidente, expandida num galho
Como outras flores, numa revelação de pétalas;
Rosa-prateado das flores do pessegueiro, verde vidraria
veneziana das flores da nespereira e da sorveira,
Taças de vinho pouco profundas em curtos caules
túrgidos,
Clara promessa do paraíso:
Ao espinheiro florido! À Revelação!
A corajosa, a aventurosa rosácea.
Itálico
Dobrado sobre si mesmo, indizível segredo,
A seiva leitosa que coalha o leite quando se faz a ricotta,
Seiva tão estranhamente impregnando os dedos que
afugenta as próprias cabras;
Dobrado sobre si mesmo, velado como uma mulher
muçulmana,
A nudez oculta, a floração para sempre invisível,
Apenas uma estreita via de acesso, cortinas corridas
diante da luz;
Figo, fruta do mistério feminino, escondida e íntima,
Fruta do mediterrâneo com tua nudez coberta,
Onde tudo se passa no invisível, floração e fecundação,
e maturação
Na intimidade mais profunda, que nenhuns olhos
conseguem devassar
Antes que tudo acabe, e demasiado madura te abras
entregando a alma.

Até que a gota da maturidade exsude,
E o ano chegue ao fim.

O figo guardou muito tempo o seu segredo.
Então abre-se e vê-se o escarlate através da fenda.
E o figo está completo, fechou-se o ano.

Assim morre o figo, revelando o carmesim através
da fenda púrpura
Como uma ferida, a exposição do segredo à luz do dia.
Como uma prostituta, a fruta aberta mostra o seu segredo.

Assim também morrem as mulheres.

Demasiado maduro, esgotou-se o ano,
O ano das nossas mulheres.
Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.
Foi desvendado o segredo.
E em breve tudo estará podre.
Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.

Quando no seu espírito Eva soube que estava nua
Coseu folhas de figueira para si e para o homem.
Sempre estivera nua,
Mas nunca se importara com isso antes da maçã da
ciência.

Soube-o no seu espírito, e coseu folhas de figueira.
E desde então as mulheres não pararam de coser.
Agora bordam, não para esconder, mas para adornar
o figo aberto.
Têm agora mais que nunca a sua nudez no espírito,
E não hão-se nunca deixar que o esqueçamos.

Agora, o segredo
Tornou-se uma afirmação através dos lábios húmidos
e escarlates
Que riem perante a indignação do Senhor.

Pois quê, bom Deus! gritam as mulheres.
Muito tempo guardámos o nosso segredo.
Somos um figo maduro.
Deixa-nos abrir em afirmação.

Elas esquecem que os figos maduros não se ocultam.
Os figos maduros não se ocultam.

Figos brancos-mel do Norte, negros figos de entranhas
escarlates do Sul.
Os figos maduros não se ocultam, não se ocultam sob nenhum clima.
Que fazer então quando todas as mulheres do mundo
se abrirem na sua afirmação?
Quando os figos abertos não se ocultarem?

26.12.10

Porque o amor das coisas no seu tempo futuro é terrivelmente profundo, é suave, devastador.



SÚMULA
Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

- Era uma casa - como direi? - absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.

Herberto Helder In «Ou o Poema Contínuo», Assírio & Alvim, 2001